28.1.08

Réquiem



Bem, para muitas pessoas um celular é apenas um celular. Algo que se usa, tem seu tempo de funcionamento e que deve ser abandonado ou trocado rapidamente, assim que um modelo melhor ou mais interessante surge. Mas bem, existem pessoas que dizem a mesma coisa sobre mulheres e amigos, então não se deve levar esse tipo de gente em consideração. E eu digo isso porque, mais do que um celular, o meu pequeno (ou nem tanto) Siemens A60 (a.k.a. “coisa”, “treco”, “tijolo de prata” ou “tomahawk”) foi um amigo para mim.

Nos conhecemos em 2004, quando meu antigo celular, um Siemens A40, acabou tendo que ser abandonado, após se estilhaçar e deixar de funcionar como peso de papel (ligações ele havia parado de fazer em 2002 e mensagens eu não lia desde meados de 2003) e eu fui a uma loja em busca do modelo mais básico e menos cheio de opções que pudesse existir. Entre um telefone fixo e ele, eu acabei escolhendo o A60 pela facilidade de transporte.

Rapidamente criamos uma enorme identificação mútua, afinal, assim como eu ele era desajeitado, levemente obsoleto, incomodava todo mundo lá em casa e não conseguia impressionar as menininhas. Em pouco tempo eu não conseguia viver sem ele, já que ele era um excelente despertador (só fui notar que ele também fazia ligações em 2006, e desde então parei de achar que tinha o único despertador com joguinhos do mundo) e uma boa companhia.

Obcecado por viver no limite, conseguiu sobreviver a situações e locais extremos, como caçapas de mesa de sinuca, quedas de mais de 3 metros, ser pisoteado, esquecido no congelador, jogado no copo de bebida, atirado em mim, atirado por mim, atirado por mim em mim (não quero comentar esse assunto), esmigalhado em vários pedacinhos e depois colado, passando meses na assistência técnica e finalmente sendo roubado. E logo depois devolvido pelo ladrão, com um esgar de desdém.

Nele eu disse alguns “eu te amo”, vários “não me enche”, inúmeros “por favor, me deixa dormir...”, um monte de “mãe, eu tô com o Yuri”, um “mãe, o carro bateu mas eu tô legal”, alguns “eu adoro sua voz, sabia?” e pelo menos dois “essa não ser a telefona da João, ser a da Hans, eu alemão do norte. João eu não saber quem é...”. Nele eu recebi notícias ótimas, boas, médias, ruins e péssimas, incluindo, eu acho, a pior da minha vida. Nele me acharam, eu querendo ser encontrado ou não, mas não me acharam na maior parte das vezes em que tentaram. O que é bom, provavelmente.

E bem, até hoje eu tive tantos celulares quanto namoradas, ainda que pelo menos com os meus dois ex-celulares eu tenha certeza que sempre vou querer falar. Bem, seja feliz no céu dos celulares A60. Um dia a gente se encontra. Ou não. Afinal, eu não sou um celular. E nem devo ir pro céu. Mas não vamos ganhar nada pensando nisso.


5 comentários:

Padapri said...

Sabe que mesmo de longe eu peguei um carinho enorme por esse celular, não sabe? Meu companheiro de horas e horas. rs.
Se puder me manda um pedaço dele. Quero guardar. rs
E iuuupiiii. Vc já disse que acha minha voz bonita. =D
Bjo, Ju.
Saudaaaaade. =/

thiagoferreiracoelho said...

Cara, meu celular também é, basicamente, um despertador. Tendência que está prestes a mudar agora que estou namorando, mas isso não vem ao caso. O que eu quero dizer é que nunca tinha percebido o quanto um simples aparelho (ainda que tenha toques polifônicos, baixe mp3, toque rádio am e fm, tenha 7.2 megapixels e zoom digital) pode ser tão importante pelas demonstrações de afeto e sentimento que eles podem proporcionar. Especialmente os "não me enche".

Mateus TG said...

Jão, vc não explicou o motivo pelo qual o seu celular se foi!

E faltou falar q, através dele, vc tb deu um tumé nos seus amigos.

... acho q essa já é a segunda bronca q eu passo em vc por conta do bolo no Rio. Cara, eu to ficando um velho ranzinza...

Angélica said...

Eu tive mais namorados que celulares. E estou fazendo planos de aumentar essa diferença, mas também não vem ao caso.
Sofri horrores quando troquei de aparelho pela última vez porque ele tinha toquinhos mais legais e jogos melhores do que os do atual. Mas também não faço toda questão do mundo de me desfazer dele por um que faça café ou leia o pensamento dos outros.

Sujeito Oculto said...

Lamento por sua perda. Que momento triste! Snifff! :'(

 
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