Caras como eu...
Uma das experiências mais insólitas da existência humana é conhecer pessoas parecidas com você mesmo. Isso começa quando você se vê no espelho pela primeira vez e descobre como você é, e continua todas as vezes que você encontra alguém como você e descobre como você deve parecer pras outras pessoas. E admitamos, costuma ser desagradável, em boa parte dos casos, estar perto ou cercado de pessoas parecidas contigo. É como aquela velha história de que a garota bonita sempre tem amigas feias, ou que ter um fracassado por perto faz as pessoas se sentirem mais bem-sucedidas.
Eu nunca topei com muita gente parecida comigo, e admito isso. Não por ser especial ou coisa do tipo, mas porque eu sou um cara meio...estranho. Por isso o meu choque quando fui na minha primeira convenção/feira de quadrinhos.
Claro, existe todo esse estereótipo, construído durante várias gerações, de que os leitores de quadrinhos são quase todos uns nerds de óculos, praticamente sem vida pessoal, preocupados muito mais com universos imaginários habitados por seres super-poderosos do que com o chamado “mundo real” e dotados de linguagem, vestuário e códigos de moral próprios. E bem, talvez esse pessoal estivesse certo. Afinal, o que eu vi não foi lá tão diferente disso.
Eu cheguei no local e vi todas as estantes, mesas e caixas cheias de quadrinhos, action figures (no “mundo real” as action figures se chamam “bonecos articulados”. Mas o mundo real é feio, bobo e sem graça), livros, DVDs, cards, coletâneas, edições especiais e encadernados. Minha primeira reação foi parar, levemente abobado e dizer “cacete!”. Logo após dizer isso, virei para o lado e vi um cara, também de óculos, olhar pra tudo aquilo, parar, de forma levemente abobada e dizer “caramba!”.
Preocupado, comecei a andar pelo local. Vi que minha camisa do Lanterna Verde não só não destoava, como estava totalmente em sintonia com o ambiente. Vi dois caras folheando Watchmen e discutindo a adaptação pro cinema. Vi um cara gastando 200 reais numa action figure do Hurley, de Lost. Vi um casal discutindo se ele ou ela iam pagar pelos encadernados do Monstro do Pântano. Discuti com um cara sobre a atual fase do Deadpool, bem menos engraçada do que a do Joe Kelly. Conheci um cara chamado Logan e reclamamos juntos do fato de que todo jovem desenhista parece querer desenhar só histórias próprias e como isso atrapalha os novos roteiristas.
Assisti palestras sobre quadrinhos. Ouvi pessoas concordando comigo sobre o quão legal foi o Starman do James Robinson, como realmente o Kevin Smith tinha que dirigir um filme do Demolidor e como a cronologia dos X-Men é uma zona. Um palestrante (um dos meu ídolos de infância, especialista em cobertura jornalística de quadrinhos) fez uma piada sobre terras paralelas. E todo o auditório riu!!
Por alguns minutos, eu me senti em casa, parte de um grupo de pessoas, de uma forma que eu realmente nunca havia me sentido. Tínhamos diferentes idades, diferentes cores, diferentes opiniões, diferentes visões em relação a quem ganharia uma luta entre Conan e Batman, mas éramos uma espécie de fraternidade, ligados por traços comuns e interesses similares.
E bem, eu ainda estava nessa, acalentado no útero materno da nerdice e me sentindo parte de uma bonita comunidade, finalmente identificado e uno com pessoas que me compreenderiam, pessoas em cujos olhos eu via refletida a minha imagem de forma cristalina, totalmente esquecido de qualquer lado menos alegre de fazer parte de uma coletividade, quando minha namorada (é sempre a namorada, impressionante...) me disse a seguinte frase: “Ainda bem que você não é esquisito como esse pessoal...Bizarro...”. Olhei pra ela, olhei pro cara ao meu lado, usando uma camisa do Yoda (com o cinto por cima) e segurando uma caixa no valor de 300 reais com uma action figure do Ash, de Evil Dead e pronto. Toda a magia acabou. Passei a viver uma vida mais triste desde então. Estou pensando em começar a usar drogas pra tentar reproduzir aquele sentimento porque não sei mais o que fazer com toda essa solidão. Sinto que uma parte da minha vida acabou. É triste. Vou me matar e já volto.
3 comentários:
Eu entendo como se sente. Quando eu namorava chamei a criatura (a quem chamo carinhosamente de aborto) pra ir comigo a um evento desses. Ele disse que não tem paciência de ficar o dia todo vendo pessoas estranhas vestidas de maneira ridícula. Eu fui só mesmo, mas depois do que ele falou, nem me animei pra falar pra ele que eu tinha visto o Jaspion por lá(foi tão legal ver o Jaspion)
Isso é muito triste mesmo....
Ow, cada dia que passa eu penso mais fortemente em promover um encontro entre você e o meu namorado!!!!!
E, na boa, eu não me importaria de ir com ele a eventos como esse porque me divirto em qualquer lugar.
Tudo bem que eu é que ia me sentir meio peixe fora d'água, mas não seria a primeira vez nessa vida...
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